11 de out. de 2012

Verdades de um silêncio - Ricardo Verissimo









Verdades de um silêncio

Quem és? Eu sou o silêncio.

De onde vens?

Venho do interior da tua alma. E hoje ouvi tuas súplicas. Por não suportares tuas angústias, tuas inseguranças e teus medos, me buscaste, para que eu viesse te falar. Então escuta-me. Se me escutares, sentirás uma calmaria e assim poderás arguir contigo mesmo.

Argumentes com teus sentimentos, discuta com eles, critique se for necessário. Fale com a saudade, com o rancor, pois só assim a senhora maldade vai parar de te atormentar e o senhor ódio virar poeira do tempo.

Agora que tudo foi embora poderás me ouvir. E se podes me ouvir, ouvirás e sentirás o som do mestre, que se chama AMOR.

Outrora não precisavas de mim, pois estavas tão absorto na tua verdade que me escondeste. Hoje que buscas a verdade das verdades, me tens vivo em teu ser.

9 de out. de 2012

O amor quando se revela- Fernando Pessoa






"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..."





Fernando Pessoa

7 de out. de 2012

Sonhar- Helena Kolody



SONHAR
Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante Paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar constantemente o olhar ao céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.
Helena Kolody